
Alguns textos
JANEIRO
Poesia
que minhas promessas de ano se façam poesia
quero mais versos nas páginas dos meus dias
menos odes, muito mais cantoria
quero que haja em minha vida mais poesia
E que se façam grandes minhas toadas
decassílabos doidos de noites devassadas
redondilhas maiores compassando alegria
sete sílabas poéticas, sete mares de poesia
Que meus erros cansados se façam borrão
são versos de giz apagados no chão
que meus versos de preguiça, preconceito e letargia
se façam brancos
sem par, sem rima, sem elegia
pois agora sabem da força da minha poesia
E que minha revolução se faça alexandrina
avassaladora, bela, imperiosa sina
do homem que se escreve menino
e que brada ao mundo ser poeta
que sua trova não é mais incerta
que em sua vida agora há mais poesia
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ANÁLISE SIMPÁTICA
Quando a vida é zeugma
somente a esperança
complementa o sujeito
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O CEGO NARCISO
Olhar com os olhos de alguém
é desvestir-se de si
é desistir de ser flor
para virar colibri
E voar pra mais além
e deixar sua própria rima
sua métrica segura
seu complexo de obra prima
Mas desolhar-se é custoso
pois que o espelho é ardiloso
e quase sempre indulgente
E o seu canto mavioso
é um conselho perigoso
e o que faz desver-se urgente
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CARRINHOS DE FERRO
Nasci em 84, em São Paulo, numa madrugada confusa e sem gasolina, que por pouco não me fez nascer em Brasília (o carro, não a cidade) — como disse, confusa e sem gasolina. Garoei na metrópole paulista até os dois anos, época em que minhas lembranças só interessariam a Freud, quando veio o chamado para minha grande aventura: a Amazônia.
Meus pais eram médicos recém-formados, começando a vida e os bolsos, e receberam uma oferta irrecusável para trabalhar numa cidade particular (da Vale), prestando serviços a uma mineradora de bauxita, no meio da floresta. O salário era bom, não pagariam aluguel, luz, água nem a escola do filho, tudo seria fornecido pela companhia. Então partimos.
A cidade aninhava-se a noroeste do Pará, acessível apenas por barco ou avião e se chamava Porto Trombetas, mas também poderia ser conhecida como “Tudo Um”, pois só havia um clube, um cinema, uma escola, etc. Era tão miúda que não tinha nem ônibus, nem moradores de rua, nem polícia, nem assaltante — dormíamos de portas abertas pro vento velar nosso sono. Lá quase todos se conheciam e, nas noites quentes, os vizinhos botavam a cadeira na porta, enquanto a criançada tomava banho de mangueira na rua. As casas eram quase iguais, sem muros, ladeadas por grandes jardins, enormes castanholeiras, coqueiros, marias-sem-vergonha, hibiscos e um sem-número de árvores de comer. Quando era tempo, coisa mais comum era ver moleques descamisados, com varas de bambu para catar goiabas, cajus, ingás, mangas, murucis e o que mais pudessem carregar. Sacolas cheias, beiços melados e pés de barro, eis um bocado da minha infância.
Como todo mundo estudava na mesma escola, as turmas seguiam a mesma lógica, uma certa divisão por idade e não por status social, e cada bando tinha seus hábitos e brincadeiras (como o assustador “futporrada” dos meninos mais velhos). Mas havia um ponto de convergência entre toda a molecada, uma brincadeira simples e bonita: carrinhos de ferro. Eram daqueles pequenininhos, que a gente comprava de cartela no Bazar da Dona Gilda ou em Manaus, quando o avião parava por lá no caminho pra qualquer outro lugar.
Geralmente o encontro acontecia de tarde. Os moleques peregrinávamos pelos quintais uns dos outros, mal batendo palma e já entrando (e quando as tias davam conta a gente já estava no sofá, esperando o amigo). Seja pela miudeza da cidade ou pela similaridade entre nossos lares, parecia que morávamos todos juntos, especialmente nessa hora, onde os rapazes mais caneludos se esqueciam das mocinhas cheirosas e ajoelhavam na terra pra construir brinquedo conosco, os meia-porção. Era uma comunhão bonita, crianças com um e dois dígitos de idade brincando juntas, despreocupadas, desseparadas.
Como em todo bom ritual, também havia um templo, que era o canto detrás da trave de cá do campinho (as árvores e as terras de lá eram mais generosas). Então acontecia a divisão de carrinhos, emprestados/ trocados/ surrupiados de acordo com a profissão da vez (e todos queriam ser policiais porque poderiam correr pela cidade e prender alguém). Aí começava a construção, ruas e avenidas feitas com taquinhos sulcando a areia fofa daquele chão, cada qual querendo fazer a casa mais vistosa, com garagem e porteira. Valia tudo, de túneis à arranjos com tufos de capim. Depois, chafurdávamos em nossos papéis e a interação era bem realista. Tinha menino bombeiro, outro era dono de supermercado, havia os ladrões e até moleque-polícia, botando banca braba de autoridade. De vez em quando a atuação transpunha as fronteiras de nossa metrópole movediça e os socos eram de verdade, com carrinhos e cabelos voando pra todo lado. Mas a beleza dessa época é justamente essa, saber que emoções são pó, não pedra, e de pouco já construíamos de novo, amalgamados.
Hoje, a milhares de quilômetros e anos de Trombetas, pergunto-me se as crianças de lá ainda brincam de carrinhos de ferro ou se a pobreza da infância asséptica e virtual de hoje devorou mais esta tradição. Que histórias contarão este pequenos, meu Deus, que histórias?